sexta-feira, novembro 19, 2004

Histórias Ferroviárias

Entrecampos vinte horas.
O mar de gente que cresce a cada dia que passa sobre o relatório que, por ser geológico, é secreto. “Nem quero saber” – disso o outro, sobre outro assunto, mas isso são outros quinhentos.
Caminhando atrás de uma voz provecta que inundava o túnel de ligação ao comboio. comecei inexplicavelmente a entender o texto da morna declamada: “…Lembróme bô perfil…” e sem bem entender porquês limpei a cabeça das cinzas semanais "...nocênte … Ma que já tá trazê…”.
“…sargide na pele… dôr ma sufrimênte…” Amparada em braço de outro deslocava-se lentamente , muito lentamente, mas enchia todo o espaço de uma energia estranha, inebriante, “ ...sina de nôs pôve… Fôme cá prêsta! Fôme ê bjôm!... Ma ants fôme do qui pêste ma guérra!...”. Todo o bulir hostil habitual recuou perante tão singular personagem. “…Fôme ta minguóne, ta incudjine…
Sentei-me com o desgosto silencioso do metal ferroviário “…ma quem ta morrê fête menine…” mas no exacto momento da partida somos brindados com a companhia deste anjo intemporal “…de lá de barriga de terra!...”.
Cheguei a casa, olhei o céu, e decidi (d)escrever.


F.Marinho

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